O leitor brasileiro ainda no rodapé

Verdadeiro leitor, procura-se. 67% não recebem incentivo à leitura. 66% não frequentam bibliotecas, diz Retratos da Leitura no Brasil.

Situação do leitor em Retratos da Leitura no Brasil

Muitos brasileiros até reconhecem a grande contribuição dos livros e da leitura para a inserção social e a consequente formação da cidadania. E sabem do quanto a leitura é importante para uma atuação mais consciente e produtiva na sociedade.

Contudo, o autêntico leitor ainda é considerado uma raridade, difícil de encontrar nos dias atuais. O que não é novidade, porque a leitura, principalmente a de livros, nunca foi uma tradição no país.

Na verdade, a obrigatoriedade da alfabetização dos brasileiros de maneira séria é algo recente, tem menos de cem anos, datando de meados de 1930, no dizer de Regina Zilberman, professora do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em reportagem do Jornal Zero Hora (RS, 2015).
De acordo com a professora, aqui a cultura da oralidade prevalece sobre a letrada, diferentemente do que acontece na Europa onde o livro sempre ocupou uma posição central.

Para se ter uma ideia, nesse continente, a média de leitura per capita costuma variar de oito a dez livros ao ano, destaca a presidente do Instituto Pró-livro, Karine Pansa (GAZETA DO POVO, 2012).
Em alguns países é possível observar médias anuais até maiores, como por exemplo na França, com 12 livros, na Espanha com 11, e na Noruega que chega a alcançar cerca de 16 livros, acrescenta o pedagogo e mestre em Ciência, Gestão e Tecnologia da Informação, Marcus Garcia.

Já no Brasil, pelo contrário, a média anual fica bem aquém desses números.

Retratos da Leitura no Brasil

Fonte: Retratos da Leitura no Brasil

São 4,96 livros lidos por pessoa, entre os de literatura, contos, romances, livros religiosos e didáticos.

Desse total, apenas 2,43 são lidos por inteiro, e os outros 2,53 não costumam ser concluídos, conforme a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o mais abrangente estudo sobre comportamento dos brasileiros em relação à leitura, realizado pelo Instituto Pró-livro em parceria com o Ibope Inteligência (2016).

Apesar de uma ligeira melhora no tocante aos dados anteriores (2011), os números atuais não deixam de ser preocupantes. Ora, vivemos em plena sociedade da informação cuja inclusão social exige cada vez mais que saibamos interpretar, compreender e avaliar, com autonomia de pensamento e competência, as diversas formas de conteúdos com os quais nos deparamos dia após dia.

Esse é um cenário em que o leitor assume papel imprescindível. Deve se fazer entender e ser entendido nos mais diferentes contextos e situações, buscando sempre ampliar sua capacidade de compreensão com ideias próprias e maduras sobre o mundo ao seu redor. E isso requer um vasto conhecimento enciclopédico ou bagagem cultural, sendo que uma das principais fontes de aquisição está no hábito da leitura.

A questão, no entanto, é como conscientizar as pessoas da importância de tal atitude, já que o levantamento do Instituto Pró-livro constatou também que 44% da população brasileira não lê.

Porcentagem de não leitor é de 44%

Fonte: Retratos da Leitura no Brasil

Além disso, 30% jamais comprou um livro na vida, e 59% dos entrevistados disseram não estar lendo nenhum livro no momento.

Brasileiro reluta em abrir um livro

A neura de ler

O fato é que todo esse desinteresse pela leitura deveria ser combatido ainda na infância, desde os primeiros anos de vida do indivíduo.

Mas na maioria das vezes, no ambiente familiar, as crianças não são estimuladas pelos pais. E ao chegarem na escola, elas acabam também encontrando professores mais preocupados com ensino da gramática do que propriamente com o da leitura em si.
Sem contar que, hoje em dia, mesmo fazendo uso das várias mídias existentes, as leituras geralmente são rápidas e pequenas, afirma Maria Luzineide Costa Ribeiro, mestre em literatura e professora do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UNB), em matéria publicada pelo Jornal Correio Brasiliense, (DF, 2015).

67% não são motivados a ler

Fonte: Retratos da Leitura no Brasil

De certo que a formação do leitor é falha no Brasil, e isso exige maior valorização dos professores, constantes incentivos por parte das escolas e das famílias, além de mais acesso a livros e bibliotecas. Estas, aliás, deveriam ser espaços de diálogos e não servir apenas como depósitos de livros, finaliza Ribeiro.

66% não frequentam bibliotecas

Fonte: Retratos da Leitura no Brasil

Mas, por outro lado, de que valeria aplicar todas as medidas citadas acima, se elas não puderem despertar o prazer e o encantamento pela leitura?

Há de se lembrar que a grande maioria dos alunos a utiliza mesmo é de forma utilitarista. O interesse deles está nos resultados, nas boas notas, pouco se importando por aquela paixão despretensiosa pelos livros, constata Poulain (2012).

Para ser um leitor competente, é preciso tomar gosto pela leitura, livrando-se do dever de ler somente por uma obrigação enfadonha.

É claro que os livros ajudam a desenvolver aptidões linguísticas, mas, acima de tudo, eles servem para enriquecer a imaginação e o nosso interior, descortinando outras maneiras de se pensar e agir, de se ocupar e de viver.
Quando isso acontece, a criatividade fica mais aguçada e há um maior senso de julgamento e autocrítica.

Para o bom leitor, o topo da leitura.

Topo aos amantes

Se quisermos alcançar esse patamar de leitura, o primeiro passo é aprender a ser amantes dos livros. Para tanto, a aproximação com eles deve iniciar por etapas.

Ao invés de escolher logo um livro clássico, composto de inúmeras páginas, comece com aquele que o agrade, independente de qual seja o assunto. Qualquer tema já é válido para abrir as portas à leitura, recomendam Leite, Rio e Alves, do Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Educação Continuada (CPDEC, 2013).

É importante também que você aproveite qualquer tempo ocioso do seu dia para ler: filas de banco, salas de espera em consultórios, dentro de ônibus, etc. A companhia de um livro fará com que o desconforto desses momentos seja minimizado.

Ainda de acordo com as orientações das autoras, deve-se estabelecer um horário para ler. Pode ser antes de dormir ou naqueles dez minutos que restam do almoço. Quando você ritualiza essa prática, mais facilmente ela se tornará parte da sua rotina.

Outra dica é não esquecer de tirar proveito daquilo que você lê. Isto é, reflita sobre o assunto abordado nas leituras, discorde ou concorde, converse com outras pessoas a respeito do seu ponto de vista, etc. Isso fará com que você coloque em prática o que foi lido, exercitando a sua argumentação e o seu vocabulário.

As autoras terminam dizendo que não existem fórmulas mágicas para se transformar num leitor assíduo. Mas que, com dedicação e perseverança, é possível ler rotineiramente, por prazer e não por obrigação.
E para quem acha difícil atingir esse estado de entrega espontânea pelos livros, lembre-se:

Infelizes são aqueles que não leem, porque passam a ver o mundo com os olhos dos outros. Acreditam no que ouvem, uma vez que não constroem parâmetros próprios para analisar o mundo, a partir de diferentes perspectivas. Permanecem, lamentavelmente, atrelados ao físico, ao material, deixando de usar a capacidade que mais caracteriza o ser humano: a abstração.
Assim, sempre terão dificuldades de operar na ausência do objeto (BOZZA, 2008).

Quem mal lê, mal  ouve, mal fala, mal vê ( Monteiro Lobato).

Referências:

BOZZA, Sandra. A leitura como mediadora da aprendizagem. São Paulo: Cortez, 2008.
JORNAL CORREIO BRASILIENSE. Brasileiros dedicam menos de seis horas por semana a leitura. Brasília, DF, 2015.
JORNAL ZERO HORA. Porque os brasileiros leem tão pouco? Porto Alegre, RS, 2015.
LEITE, Rosângela Curvo; RIO, Vívian; ALVES, Cláudia Tavares. Por que ler? Os benefícios da leitura. Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Educação Continuada (CPDEC, 2013).
POULAIN, M. Entretien. In: BESSARD-BANQUY, O. Les mutatios de la lecture. Bordeaux: Press Universitaires de Bordeaux, 2012, p. 218-248.
RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL. 4ª Edição, 2016.

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